Mário Fonseca aka “O Super Mário”

1- Mário, para quem ainda não te conhece… consegues fazer um pequeno resumo da tua vida? “Mario Fonseca in a Nutshell” ?

Claro que consigo. Sou conhecido por fazer tudo em escalas pequenas!
Como é que se resumem quatro décadas? Bem, nasci e vivi quase a minha vida toda em Almada. A minha infância foi feliz. Nunca tive grande veia para o desporto e a minha primeira experiência a bordo de alguma coisa com pedais foi um triciclo e um carro a pedais e aos 16 anos uma BMX Super com amortecedor, branca e azul. Uns anos mais tarde veio a primeira BTT, uma Marvil “Juventus”, em “aço-cromo-chumbo” com forqueta rígida (que partiu) e Shimano GS200. Em 1993 veio a famosa Pro-Flex Arcadia que a Bike Magazine sorteou e que ganhei com a famosa frase “Flex mas não parte”. Nesta altura comecei a competir na classe de Promoção em Cross Country. Daí em diante passei 10 anos a treinar, correr, cair, levantar, sofrer (só porque sim), em troca de nada, a fazer amigos e rivalidades saudáveis e a derreter todos os centavos que tinha nas bicicletas. Ainda ganhei uns (muitos) “Canecos”, um título Regional mas a nível nacional nunca fui mais que o “melhor dos piores”. Fui deixando a competição e passei a pedalar por gozo, a fotografar e a escrever umas coisas para publicar na net, o que me fez colaborar com a Bike Magazine mas foi aqui o último fôlego e deixei mesmo de pedalar durante uns anos. Só em 2011 quando me mudei de Lisboa para Évora é que voltei a pedalar por gosto. Comecei a explorar as estradas e a coleccionar placas de fronteira. Comecei a “investir” tempo nas redes sociais. Depois veio o Madrid Lisboa, depois o Sagres Bragança, depois veio aquilo que na altura vi como o ponto alto de toda esta aventura, que foi o apoio da Galácio Bike e da Scott Portugal, depois veio a Race Around Ireland onde quase perdi a vida e daí para cá foi “sempre a descer”, Quando o “patrocínio” acabou, desliguei-me das redes sociais. Mudei-me de novo para Lisboa e hoje em dia não quero saber de famas, de apoios, ou patrocínios porque finalmente percebi que a fama da internet não te dá nada nem paga as contas. Hoje, depois da minha BTT, a minha companheira das minhas melhores aventuras, ter falecido aos sessenta mil quilómetros, tenho uma bicicleta de estrada usada que comprei com o meu dinheiro e o pouco ou nada que vou publicando nas redes é aquilo que me der na telha, sem querer agradar a ninguém em especial. Pronto, Nutshell (depois de apagar uns milhares de caracteres).

2- Como lida a família com estas tuas aventuras? Pergunto isto porque nas minhas tenho sempre alguém que fica com o coração nas mãos
Não lidavam bem. Ficavam sempre com o coração nas mãos. Por isso é que eu decidia numa tarde que à meia-noite desse dia ia arrancar para sabe-se lá onde me apetecia tentar chegar e não dava grande oportunidade de me tentarem demover de ir, ou sequer de eu próprio pensar muito no assunto. Não gosto de esperar. Decido, junto o mínimo essencial e arranco. Não vá mudar de ideias. Assim isso só acontecia lá para o meio da viagem e se já comecei, então é para acabar. Mas hoje em dia já sou eu quem pensa duas e três vezes antes de me aventurar. O que se passou com o João Marinho e o Mike Hall somado a todas as minhas desventuras mais arriscadas, fez-me pensar mais e deixar de corer riscos muito longe de casa.

3- O que é que te levou a apostar nas grandes distâncias?
Apostar, não apostei nada. Só me sentia bem a pedalar. Sempre me fez bem. As distâncias longas funcionam como uma overdose porque te levam ao limite, até ao ponto em que começas a deixar de gostar do que estás a fazer.
Nas viagens muito longas o sangue foge-te do cérebro e esqueces as preocupações, concentras-te na pedalada, no trânsito, distrais-te com a paisagem, vês o sol pôr-se, nascer, concentras-te nas funções mais básicas como comer, beber, descansar, e acima de tudo a função mais básica de todas que é sobreviver. Quando entenderes que já chega de solidão, dás meia e volta e regressas ao conforto de um tecto e do calor dos braços de quem está à tua espera.
Este efeito dura até te esqueceres do quanto te custou fazer aqueles quilómetros todos, das dores, das dificuldades e de quanto sofreste na tua última longa viagem e te começares a sentir de novo apenas um prisioneiro da tua vida e arrancares para a próxima aventura em busca daquela sensação de superação, daquela paisagem que te ficou gravada na mente, do quão bem sabe aquela água fresca depois do sol te grelhar durante horas, daquela primeira pastelaria que encontras aberta às sete da manhã onde vais queimar a língua com um café a ferver quando nem consegues segurar na chávena de tão congelados que os teus dedos estão. No final percebes que não podes viajar sem destino e que tens que voltar a casa porque entendes que a solidão tem o seu valor e o seu lugar nas nossas vidas mas não “te leva a lado nenhum”, pelo contrário, a solidão é o que te faz querer voltar depressa para casa. É como um elástico. Quanto mais o esticas mais ele te puxa de volta.
As viagens longas são o “cair da ficha”. Fazem com que vejas as coisas numa perspectiva de sobrevivência fazem com que percebas o que realmente é importante para “viver”. Mas é uma overdose, também te pode matar.

4- Se pudesses escolher uma bicicleta e um local para pedalar… quais seriam?
Não sei responder. Conheço tão pouco do Mundo… sempre quis atravessar os Estados Unidos da América mas esse foi um sonho que se foi desfazendo e que perdi. Quanto à bicicleta, uma qualquer que não me deixe apeado.

5- Alguma aventura que te tenha ficado “atravessada” ? Que não tenhas concluído ou que não tenhas tido a possibilidade de a fazer ainda?
Todas as que falhei. Seja por me ter espetado no chão e que tenha que ter abortado (mesmo tendo sempre voltado a pedalar para casa) ou por ter empenado de tal maneira que o meu instinto decidiu por mim que era melhor voltar para trás e deixar para outra oportunidade. Até porque se sou eu quem determina o ponto de chegada, posso sempre alterá-lo e voltar para casa. Mas sempre quis explorar mais caminhos em Espanha.

6- Ídolos, inspirações… tens ?
No que diz respeito às bicicletas. Não tenho ídolos. Inspirações, acho que também não. Admiro uma ou outra pessoa pelas suas conquistas. Mas como não as conheço pessoalmente, não sei se são dignas de terem tal papel na minha vida.

7- Durante as tuas voltas… alguma vez tiveste algum desejo “estranho” de comida? (no meu caso foi Iogurte grego com abacate, frutos secos e chocolate preto 🙂
Nada em concreto. Um bolo, um café, chocolate, sumo de fruta é o que costumo procurar nas minhas paragens para reabastecer. Se estiver empenado vai qualquer coisa, excepto carne, isso só mesmo se estiver em risco de vida.

8- Alguns conselhos para quem se quer iniciar em grandes distâncias?
Se depois do primeiro grande empeno voltares a querer pedalar é porque já estás “apanhado”. Vai aumentando aos poucos a distância sem grandes exageros de maneira a conheceres os teus limites mas vai aprendendo com os teus erros. Os erros são o teu melhor professor.
Nunca, mas nunca descures a hidratação e a alimentação. O motor não anda sem combustível ou lubrificação.

9- Algumas das provas mais desafiantes da minha vida deixaram marcas bastante profundas na minha forma de ser… O Race Around Ireland teve algum impacto em ti?
Teve. Eu senti-me perto da morte na última noite devido à exaustão física extrema e decidi naquele momento que este tipo de corridas não eram a coisa certa para mim.
Perto do final, devido à privação do sono, comecei a fabricar uma paranóia que me fez viver um pesadelo acordado e quase me suicidei para acabar com tudo. No momento em que pensei em meter-me debaixo de um camião que vinha em sentido contrário, caiu a ficha e fui a chorar os últimos 15 km da corrida até à meta. O maior impacto desta corrida na minha maneira de ser foi simples: “quando o que está em risco é a tua vida nunca dependas de ninguém”.

10- Pior momento em cima de uma bicicleta?
Descrevi-o na resposta anterior.

11- Melhor momento em cima de uma bicicleta?
Cruzar a meta do Madrid Lisboa ao lado do Nuno Caeiro e do Vítor Gomes! E quando vi uma chuva de estrelas desde Évora até à Comporta na noite de um Tróia Sagres, onde perdi a conta à estrelas cadentes!

12- Sentes que a “popularidade” afectou positivamente ou negativamente a tua vida/ relação com a bicicleta?
A popularidade na internet não te traz literalmente nada. É tudo uma grande ilusão. Como me disse um grande amigo meu (que me apoiou/patrocinou desde que o conheço): “Mário. Ninguém dá nada a ninguém”.
Ou seja, é sempre tudo um negócio, há sempre algo que tens que dar em troca, seja o teu tempo, um espaço na tua página do facebook, twitter, instagram, youtube, ou que te peçam que “tragas clientes à loja”. Há sempre uma pressão que tens porque sentes que deves algo a alguém, quando o que estás a fazer é o trabalho de quem ganha um ordenado para promover as marcas e que tu fazes a troco de nada.
O que podes “ganhar” tanto pode ser um acessório que nem precisas e que se vai desfazer, uma bicicleta emprestada que não te pertence ou até mesmo comida fora de prazo que só está a ocupar espaço numa prateleira qualquer de um armazém. Ficas sempre a perder e nada disto te paga o tempo e dinheiro que investes. Apenas estás à procura de mais trabalho de graça. E isso pode dar cabo do gozo que tens na tua relação com a bicicleta.

13- Algo em especial que faças para te abstraíres da dor quando estás a passar pelos piores momentos?
Pensar em chegar a casa. Podes estar todo desfeito por dentro e por fora mas se estiveres quase a chegar a casa vai sempre parecer que vais a bater os KOMs todos pelo caminho! Isso e ansiar pelo nascer do Sol. Ver o céu a ganhar luz e cor e depois ver aquele rosa, laranja, vermelho e aquela esfera incandescente aparecer das trevas dá-me sempre uma injecção de adrenalina que me lava a alma!

14- Nunca estiveste perto de chamar o reboque ou o BlaBlacar?
Já chamei. Uma vez mesmo no início destas aventuras. Fui de Évora a Gerês. Dormi lá, arranquei na manhã seguinte, empenei e ia morrendo congelado até parar num hotel em Tomar. No dia seguinte arranquei e numa paragem para o xi-xi escorreguei e bati com o joelho em cheio no chão. Vim a pedalar apenas com a perna… esquerda?! (acho) e quando vi que se calhar não ia conseguir chegar a casa, telefonei à minha miúda para vir ao meu encontro. Cruzei-me com ela a caminho de Arraiolos mas em vez de parar, vim o caminho todo em frente ao carro, a fugir-lhe, até casa. Tão perto do final, desistir era coisa que não queria mesmo fazer. Mas há uns anos num daqueles dias em que decidi esticar o Tróia Sagres, perto dos 600km, pedi ajuda, mas depois a cerca de 60km de casa decidi que seguia a pedalar até Évora. O meu pessoal viu a minha bicicleta parada num café e “obrigou-me” a apanhar uma boleia no final.

15-Sabias que estiveste perto de ganhar o prémio Nobel da Literatura pelo teu artigo “o medo dos outros” ? (https://www.facebook.com/SuperMarioFonseca/posts/1614073861983432)
Não sabia. Quando leio o que escrevo nem acredito que sou o autor. Ainda mais porque: “o medo dos outros” também me afecta. Por mais que queiras tens que pensar que apesar de seres dono da tua vida, fazes falta a muita gente. Hoje quando leio o #bemoremike penso que só se morre uma vez… No entanto, e aqui entra o peso da “popularidade”, quando partilhei esse artigo, houve alguém que comentou algo que me arrepiou: “isto era exactamente o que eu precisava ler”. Nesse momento pensei que as minhas palavras podiam levar alguém a colocar a vida em risco. No final percebi que esse rapaz ia fazer uma aventura até um local onde tirou uma foto que até hoje me pergunto onde é e sonho em lá ir um dia.

16- Porque viajas sempre com tanta pressa? E sozinho? Qual foi a maior aventura do ciclista de aventuras?
Não sou turista, sou um competidor, não gosto de andar devagar ou de perder muito tempo em lado nenhum, prefiro ver as coisas em movimento. A pressa deve-se também ao facto de querer apenas chegar ao destino, cumprir o desafio a que me propus e voltar para casa depressa. Essa pressa também me prega um bruto empeno em 99% das minhas aventuras, (lembram-se do “aprender com os erros”?)
Viajo sempre sozinho porque não quero depender de ou atrapalhar alguém.
A Race Around Ireland ensinou-me a nunca mais colocar a minha vida nas mãos de ninguém. Curiosamente essa foi a minha maior (leia-se “mais perigosa”) aventura onde, ao contrário daquelas em que me vi desesperado por estar completamente só, no meio do nada a tremer de frio quase em hipotermia, a ver que ia morrer congelado a caminho da Covilhã (no Sagres-Bragança), foi na Irlanda onde vi que ia viver a minha derradeira aventura, logo naquela em que tinha sempre alguém a “olhar por mim”.

17- Se tivesses de fotografar o teu hardware todo, cabia numa polaroid?
Não tenho muita coisa por isso acho que sim, nem precisava afastar-me muito, acho que até se conseguiam ler os manuais de utilizador 😉

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Nota final do “entrevistador” (que bonito! até parece que estamos a ler um livro!)
Um grande obrigado ao Mario por ter aceite este meu pedido mesmo quase sem me conhecer de lado nenhum 🙂
Inspiraste muitos e acredito que o irás continuar a fazer com ou sem bicicleta!
Em nome de todos os “inspirados”… Obrigado Super Mario!