The Breaking Man – CheckPoint 1

A história de um simples Gajo numa prova de Super-Humanos

Não vão ter fingimentos, mentiras, invenções.. nem nada perto disso nesta história. Será apenas a verdade nua e crua de tudo o que me passou pela cabeça (e de que ainda me lembro) durante esta prova diabólica que uns “gajos” franceses criaram e que Intitularam de “BikingMan”

Aviso também que não vão ter uma reviravolta tremenda e que perto do final eu vou ultrapassar o 1º classificado a poucos metros da meta, Não… esse já devia ter dormido umas valentes horas quando eu atravessei a meta em Faro, e já devia ter comido 2 ou 3 bolas de Berlim na praia.

O vencedor foi aquele senhor lá ao fundo, ainda com os sapatos por calçar. Muita experiência 🙂
Laurent Boursette

Em Outubro comecei a escrever esta história, mas abandonei por falta de inspiração ou talvez por não me apetecer recordar os momentos difíceis pelos quais passei. Recomecei a escrever no dia 04/02/2021 pelas 19h. Curiosamente 2 horas depois os organizadores do Bikingman anunciaram que o filme da prova estava prestes a sair.

Coincidência ou o Universo a brincar comigo? 😊

Nem todos sabem o que é o Biking Man, nem o que é uma prova de Ultra-Endurance. Aqui vai um pequeno resumo:

– 950km, 12.000 metros de subidas, percurso circular com inicio em Faro
– 2 Checkpoints (Vila Viçosa / Sagres)
– Não podem existir ajudas externas (temos de transportar tudo o que necessitamos ou comprar durante a viagem)
– Cada um faz a sua gestão, podes dormir ou não..
– Quem vai para lutar pelo pódio normalmente não dorme.
– O BikingMan Portugal é considerado uma prova de Sprint… porque é “possível” fazer a prova sem dormir.

No mapa fica assim 😊 easy!

– Este ano com uma dificuldade adicional… O Covid. A gestão de alimentos era ainda mais importante pois muitos cafés e restaurantes fechavam mais cedo, e alguns nem abriam
– Existe uma lista de equipamentos obrigatórios que cada um terá de levar. Tudo verificado antes na partida.

Vamos então ao que interessa sim? 😊

“Promete que não vais chegar ao limite mais uma vez, que vais parar se te sentires mal e que vais voltar inteiro para mim”

Não foram bem estas palavras que a minha Ex-Noiva usou.. mas eu sei que era isso lhe ia na alma.

(Ex-Noiva = Actual esposa ok? Não se assustem! )

Eram estas as palavras que estavam na minha cabeça poucos minutos antes de começar a prova, ao lado do meu amigo, irmão e companheiro de aventuras Tiago Neves.

4h58m
Era a hora das despedidas. Faltavam 2 minutos para o sinal de partida.

Um abraço e um:
“Boa sorte companheiro! Tenho a certeza absoluta que te vais surpreender.. és o gajo mais rijo que eu conheço” – Não o disse, mas pensei.

Foi um arranque calmo, mas que aos poucos foi ficando mais intenso pois se começavam a formar os grupos da frente.
A minha estratégia passava por ficar com esses grupos e tentar perceber qual o andamento que estavam a impor, e o nível de esforço que isso significava para mim, sabendo que teria de manter esse esforço durante 40 a 50 horas.

Quando digo “ficar com o grupo da frente” não é como se vê nas provas de ciclismo, aquele pelotão gigante e muito juntinho.. não, nas provas de ultra endurance não é permitido formar grupos. Temos de estar sempre com o peito ao vento, sem aproveitar o cone de ar gerado pelo atleta que vai na nossa frente.

Os primeiros quilómetros até Alcoutim foram sempre feitos pelas cristas das Serras Algarvias. Paisagens fantásticas mas um verdadeiro parte pernas…

Por volta do quilometro 85 ultrapassei um GRANDE senhor.
Stephane Bahier
Ao passar por ele:
Se eu terminar a minha passagem neste mundo com metade da tua força e coragem ficarei feliz
Não o disse mas pensei mais uma vez. Em vez disso disse um “Olá”, baixei a cabeça e os olhos em sinal de muito respeito.

Por esta altura (+-90km) já estava sozinho. Pelas minhas contas devia estar mais ou menos em 8º Lugar. O Líder já tinha uma vantagem de 10km.
Cada atleta tem direito a um dispositivo de Tracking que permite saber a localização 24/7.. mas em andamento não era fácil nem seguro consultar o telemóvel para controlar os adversários.

A minha lebre era o Clement Mahe. No Bikingman 2019 este senhor estava a liderar a prova até abandonar um pouco depois de Troia com problemas de estômago. Portanto estar apenas a +- 5km dele não era nada mau por enquanto.

Ao km 110 a sair de Alcoutim ia tao focado para tentar voltar a colar ao grupo da frente que nem dei conta da fantástica paisagem que estava a deixar para trás. 

Rider: Vincent Le Strat, Alcoutim

Na subida a chegar a Mértola consegui finalmente colar ao grupo do Top 5.
Foi também altura da 1ª paragem num café para comer algo que não fossem barras, géis, frutos secos e bananas.

Mértola, Km 150, 6 horas de prova

Falei um pouco com o Fabian Burri. Um verdadeiro veterano do BikingMan. Em 2019 terminou a prova em Portugal numa cargo bike 🙂 Respect!

De Mértola até Serpa a estrada não ajudava nada. Quilómetros e mais quilómetros de piso velho, desgastado, uma verdadeira tareia para todo o corpo. Naquela altura até preferia estar numa subida de 20%. Não existia uma única posição em que eu sentisse conforto.

Consegui encostar ao Dieter De Waele.
Fizemos a estrada quase toda juntos. Muitos nomes lhe chamámos! 🙂

Na minha cabeça o Anjo e o Demónio estavam a tentar decidir se aumentavam o andamento para o tentar deixar para trás.
Demónio: Carrega! Ele parece estar em esforço quando a estrada inclina mais.
Anjo: Tá quieto pah! Estás a gostar da companhia. Vais ter muito tempo para estar sozinho de certeza.

Quando lhe disse que estávamos no top 5 ficou muito surpreendido. Assim como eu, o Dieter nunca tinha participado numa prova de ultra endurance.

Rider: Dieter De Waele

A chegar a Serpa o carro da equipa do BikingMan acompanhou-nos durante alguns quilómetros. Ainda me fizeram algumas perguntas mas só me lembro de 2:

BikingMan:“Então qual a tua estratégia? É a tua primeira prova de ultra endurance!?”

Eu: “Não faço ideia… até hoje só fiz provas de 24horas. Não sei como vai o meu corpo reagir a mais de 40horas de esforço contínuo”

Neste momento apesar de não o ter dito, ainda acreditava num bom resultado. O corpo estava a reagir bem, e tinha a esperança que os outros estivessem a exagerar no andamento
Demónio: Estás errado!

Na saída de Serpa ganhámos a companhia do Cristian Auriemma. Estávamos os 3 a lutar pelo 3º lugar do pódio.
Fomos juntos durante uns bons quilómetros e tivemos direito a umas belas chapas.

A uns 15km de Moura o Dieter ficou sem água. E estava mesmo com cara de desespero, chateado com o raio das aldeias que estávamos a passar sem um único café ou fonte para abastecer. Resolvi partilhar um pouco da minha. O Anjo e o Demónio dentro da minha cabeça estavam em guerra:

Demónio: não faças isso! Ele vai desidratar e terá de reduzir o andamento! Menos um para te preocupares!
Anjo: Não sejas urso Pinto! Dá água ao rapaz! Ainda nem a 1/3 da prova chegaste. Mais vale ganhar um amigo do que eliminar um adversário.

O Anjo ganhou o argumento.

Mas a água não foi suficiente e vi o Dieter a encostar numa sombra mais à frente.
Resolvi seguir porque tinha planeado parar em Moura para uma sandes de presunto.
Nesta altura tive de deixar o Cristian Auriemma ir embora. O ritmo estava demasiado alto para mim.
Em Moura encontrei apenas um único café aberto… faltavam menos de 15 minutos para fechar.

Sentei-me na esplanada.
Água das Pedras
Cola
Água 1.5L
Sandes de Presunto

Ao passar em Serpa estava a sonhar com uma paragem para comer algo assim, mas por vezes os sonhos são melhores que a realidade.

O estômago já estava a começar a enrolar. Estava muito calor nesta altura. Só me apeteciam líquidos.
Anjo: Calma Pinto…come devagar e arrancas calmamente. Isto vai ao sítio! 
Demónio: Não vai não!

Aos poucos senti os níveis de energia a descer. O vento de frente também ajudou ao desgaste a passar em Mourão.

Lembrei-me do fantástico almoço que tive na Adega Velha, mas infelizmente Cozido de Grão era o que menos me apetecia naquela altura.

Zés Das Bikes, Epic Ride Nuestros Hermanos 2017

O “Homem da Marreta” estava em grande a passar na Aldeia de Motrinos a seguir a Monsaraz.

Os bidons da água pareciam chá.

Pedi ajuda a um senhor muito simpático que me abasteceu os bidons de água na sua casa. Estava fresquinha mas era horrível! Bahhhhh!
Mas mesmo com aquele sabor horrível, a água pareceu ajudar um pouco.

No meio de uma subida encontrei o Auriema deitado no chão a dormir á sombra. Fez-me sinal que estava tudo bem.
No dia seguinte em Faro fiquei a saber que tinha vomitado e estava a descansar um pouco. E que foi o melhor que podia ter feito. Depois daquilo lançou-se numa perseguição ao 1º classificado e só voltou a parar em Faro.
Não conseguiu alcançar o 1º, terminou em 2º lugar com um tempo total de 39horas a menos de 2horas do lugar mais alto do pódio.

Falámos dos problemas de estômago que aparentemente são bastante comuns nas ultra distâncias…o segredo passa por descobrir o que resulta para cada um de nós. Não há uma resposta certa.

Rider: Christian Auriemma, 2º Classificado BikingMan Portugal 2020

“Menos 1! Estás em 3o lugar!!!” Disse o Demónio
Desta vez era o Demónio que estava errado.

Vila Viçosa estava á vista. Cheguei e entreguei a credencial para ser “carimbada”.

Checkpoint 1 done.
330km
14horas
Quase 4000m de subidas.

“Congratulations! You’re in 3rd place! 

Lembrei-me de ver o vídeo do ano passado do BikingMan… em que vi um dos participantes a ser massajado na Pousada. Este ano graças ao nosso amigo Covid… isso não iria acontecer.

Desci um pouco até um jardim. Encostei a bike a uma árvore, coloquei 15 minutos no despertador e deitei-me na relva. Era hora de um Powernap.

A noite estava a chegar, e com ela também um dos pontos mais negros desta história.

Anjo: Vais ver que o fresco da noite vai ajudar.
Demónio: Não vai não…

Fechei os olhos.

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